Jovens são menos conservadores que os pais, mas homens jovens lideram identificação com Bolsonaro, diz Quaest
Pesquisa Quaest mostra que a geração Z brasileira é menos conservadora que os mais velhos em temas de costumes, mas homens de 16 a 24 anos concentram a maior identificação com Bolsonaro.
POLÍTICA
Vetor News
6/4/20263 min ler


Jovem é menos conservador que o pai, mas mais bolsonarista. A política brasileira conseguiu confundir até o algoritmo
Chega mais, meu analista de caos.
A política brasileira acordou com mais uma daquelas pesquisas que fazem o cérebro pedir demissão.
Segundo levantamento da Quaest, encomendado pelo instituto More in Common, os jovens brasileiros não são mais conservadores que seus pais e avós. Pelo contrário: em temas de costumes, a geração de 16 a 24 anos aparece menos conservadora do que os grupos mais velhos. A pesquisa ouviu cerca de 10 mil brasileiros entre janeiro e fevereiro de 2025 e analisou opiniões sobre gênero, sexualidade e política.
Até aí, tudo certo.
Mas aí vem o plot twist digno de roteiro escrito por estagiário do multiverso: apesar de serem menos conservadores em vários temas sociais, os homens jovens são justamente o grupo que mais se identifica com Jair Bolsonaro ou com ideias associadas ao bolsonarismo.
Entre homens de 16 a 24 anos, 42% dizem se identificar com Bolsonaro ou com o bolsonarismo. O índice cai para 35% entre homens de 25 a 54 anos, 29% entre 55 e 64 anos e 25% entre aqueles com mais de 65 anos.
Ou seja: o jovem pode até ser menos conservador que o pai em costumes, mas na política ele parece ter entrado no grupo da família, lido três correntes no WhatsApp e pensado: “quer saber, vou complicar a estatística”.
A geração que não cabe na caixinha
A parte mais interessante da pesquisa é justamente essa contradição.
O levantamento mostra que jovens apoiam mais alguns direitos civis do que pessoas mais velhas. Um exemplo é a adoção por casais do mesmo sexo: cerca de 70% dos homens jovens concordam com esse direito, enquanto entre as mulheres jovens o número chega a 83%.
Só que, ao mesmo tempo, uma parte relevante dessa mesma juventude mantém resistência a temas ligados à sexualidade, família e educação. Entre os jovens, 59% dizem acreditar que discussões sobre a chamada “ideologia de gênero” nas escolas podem confundir crianças, e 55% defendem que questões relacionadas à sexualidade devem ser tratadas apenas pelas famílias.
É uma juventude que não entra limpa na gaveta da esquerda, nem na gaveta da direita.
Ela apoia alguns direitos, rejeita parte da agenda identitária, desconfia do sistema, consome política por recorte, por influência digital, por revolta e, muitas vezes, por sensação de abandono.
É menos sobre doutrina política e mais sobre pertencimento.
O bolsonarismo entendeu a raiva antes dos outros
A esquerda costuma olhar para o jovem e imaginar automaticamente um eleitor progressista, universitário, engajado, defensor de pautas sociais e militante de rede social.
Só que o Brasil real não é uma thread bonita no X.
Tem jovem homem que está frustrado, inseguro, sem perspectiva de renda, sem estabilidade, sem admiração social e sem paciência para discurso acadêmico. Aí aparece um movimento político falando em força, ordem, masculinidade, enfrentamento ao sistema e rejeição ao “politicamente correto”.
Pronto. O pacote está montado.
O bolsonarismo não precisa convencer esse jovem de tudo. Precisa apenas entregar uma linguagem onde ele se sinta visto. E nisso, goste ou não, a direita digital foi muito mais eficiente que seus adversários.
Enquanto parte da política tradicional ainda tenta explicar o jovem brasileiro usando manual de 1998, o algoritmo já entendeu que raiva, identidade e pertencimento engajam mais que seminário de três horas com café frio.
O Brasil invisível continua invisível
O estudo O Brasil Invisível, da More in Common em parceria com a Quaest, aponta que grande parte da sociedade brasileira não vive necessariamente nos extremos barulhentos da política. A pesquisa identifica segmentos mais pragmáticos e menos polarizados, especialmente os chamados “invisíveis”, que somam parcela expressiva da população e se afastam das disputas ideológicas mais agressivas.
E talvez seja aí que mora o ponto central.
O jovem brasileiro não está necessariamente virando uma cópia dos pais. Mas também não está comprando automaticamente o pacote progressista vendido como “inevitável”.
Ele está escolhendo pedaços.
Um pouco de liberdade individual.
Um pouco de conservadorismo familiar.
Um pouco de revolta contra o sistema.
Um pouco de rejeição à política tradicional.
E, no caso dos homens jovens, uma dose forte de identificação com Bolsonaro.
A pergunta que a política não quer responder
A pesquisa não mostra uma juventude simples. Mostra uma juventude quebrada em camadas.
Menos conservadora que os pais em alguns temas.
Mais aberta a certos direitos.
Mais resistente a debates identitários em outros pontos.
E, entre os homens, mais próxima do bolsonarismo do que qualquer outra faixa etária masculina.
A pergunta que sobra é incômoda:
se os jovens estão menos presos ao conservadorismo tradicional, por que tantos homens jovens ainda encontram no bolsonarismo o lugar onde se sentem representados?
Talvez o problema não esteja apenas no jovem.
Talvez esteja em quem passou anos falando sobre juventude sem nunca realmente escutar o que ela estava tentando dizer.
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